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Sobre a depressão e outras coisas

Eu pensei e repensei algumas (muitas) vezes se escreveria sobre isso. Eu amo escrever, mas me perguntei até que ponto seria positivo reviver e relembrar momentos que considero os mais difíceis pelos quais passei. Vi uma grande quantidade de stories (no insta) disponibilizando o inbox pra "desabafos", outros orientando a procura de uma ajuda profissional, outros repletos de boas intenções justificadas pela tal da empatia e uns com relatos como o que farei. Ainda tomada por alguns sintomas dos transtornos mentais, ponderei sobre as possíveis críticas, sobre a incompreensão e, principalmente, sobre a reação de quem quer que fosse ler. Entretanto, lembrei que é importante esse negócio de compartilhar vivências e cheguei à conclusão de que se posso compartilhar meus momentos felizes e as fotos sorrindo, posso também falar sobre a Fase Cinza (não sou Picasso mas me apropriei da ideia hahaha). É importante ressaltar que, durante muito tempo, eu (assim como uma galera por aí) vesti a roupa de pessoa 100% feliz (não que não tenha sido) e guardei, no mais íntimo de mim, como era difícil me arrumar e ir pra escola, depois pra faculdade, como era difícil dormir sem que os pensamentos ruins, a falta de ar, de ânimo, de perspectiva estivessem comigo. Só Deus pôde ver quando o desespero e o medo intenso de que algo acontecesse (sem motivo aparente) tomavam conta de mim. Olha, se eu não fizesse Direito, com certeza Artes Cênicas seria o meu curso. Só Deus sabe o quanto fui boa no papel de boa moça, cheia de fé e irradiadora de talento e felicidade. Foi complicado pra que pessoas próximas a mim entendessem o que tava acontecendo, até que pudessem me ajudar. Acho que até hoje, se minha mãe vir a ler esse texto, vai brigar comigo. Ela acha que não é legal que as pessoas saibam sobre isso. Eu não a culpo, eu ouvi da minha família (mesmo que eu não tenha contado a eles sobre meu "diagnóstico") que eu não tinha motivos pra me sentir assim, afinal, eu tinha saúde, família, estudos e tudo mais que é necessário pra uma pessoa ser "feliz". Me perguntaram se algum rapazinho não me queria (é assim que as pessoas mais velhas falam hahaha), ou se eu não estava gostando do meu curso. Como iniciei a terapia nas férias, ouvi também que eu só tava assim porque não tinha nada pra fazer e que, quando as aulas voltassem, eu voltaria a ser a menina do sorriso aberto que sempre fui (ata). Ah, quase ia me esquecendo de mencionar que eu "deveria ter rezado mais e que se Deus estivesse mais presente na minha vida, nada disso teria rolado". Beleza... No começo, todas essas opiniões incomodavam o mais profundo de mim. A angústia de ter uma dor tão aguda e constante comparada a uma decepção amorosa ou à falta do que fazer era inconcebível. Depois do grito de socorro mudo (a terapeuta do meu irmão, em uma sessão familiar deu o início ao meu tratamento) e do posterior desgaste de explicar aos meus pais que EU NÃO SABIA O QUE ESTAVA ACONTECENDO, aprendi que não tem como explicar, sabe quando você bate o dedinho em uma das quinas pela casa? Só acontece. Ninguém questiona. A depressão é uma doença e, apesar de ter gatilhos e causas, só acontece também. Eu achava que era dramática e que minha obsessão por certas ideias e a insegurança desenfreada eram apenas sintomas de uma adolescência permeada por filmes da Disney e uma infância submersa no medo de escuro. Eu via o fato de colocar meias e um travesseiro no pé antes de dormir como uma atitude boba de quem ainda não havia amadurecido. Eu me achei fraca por chorar todas as noites e por misturar minhas lágrimas com a água que caía do chuveiro em muitas das vezes em que ia tomar banho. Fala sério, nem quem era mais próximo precisava saber disso. Por que falar? Eu mesma achava que, se eu tivesse um pouco mais de força e disposição, no outro dia ia acordar melhor e fazer tudo que queria (e precisava) fazer. Esse movimento de dormir esperando um dia melhor e acordar querendo voltar a dormir se repetiu muitas vezes. Se a Gabi (minha terapeuta) não tivesse me dito que isso não era normal, eu estaria até hoje me culpando por algo que, custei a perceber, não é culpa minha. A princípio, eu tava só deprimida... Depois meu psiquiatra disse que era depressão mesmo e que eu não ia conseguir "melhorar" sem uns remedinhos. Meus pais disseram que não era necessário. Eu disse pro psiquiatra-anjo que eles não queriam isso pra mim e ele me perguntou (bem clichê e cheio de ironia) se eles me impediriam de fazer quimio se eu tivesse com câncer. Comecei com os remédios... Ele me avisou que o anti-depressivo seria complicado nos primeiros dias e que, talvez eu me sentisse até pior. Não sei se por ideia fixa ou por realmente ter efeitos colaterais, foi sofrido. Eu achei que o Escitalopram estava me matando e que o Alprazolam (o remédio da noite) me fazia reviver. Tive bons e maus momentos. Uma relação tênue de amor e ódio. Pensei em parar de tomar e, assombrada pela ideia de voltar a me sentir como antes, decidi continuar. Depois de duas semanas eu já havia me acostumado com o aumento do peso nos meus ombros (aumento porque esse já me acompanhava há tempos), as mãos tremendo e a boca seca. Quando, sem que eu percebesse, uma venda caiu. Agora as coisas tinham mais graça e eu sabia que existia um amanhã, uma perspectiva. As memórias de dor pareciam um pouco mais distantes, a ponto de não me machucarem tanto. Eu recaí. Digo isso porque, na minha cabeça, se eu não tomasse o remédio direitinho e conseguisse levar o dia bem, eu teria voltado a ser um fracasso. É duro chamar alguém de fracassado, né? E eu senti que fracassei, eu me tratei mal assim. Eu não podia tirar 9,8 porque isso era um fracasso. Com o tempo eu aprendi que tudo bem tirar 10, 9, 8 ou 0. Tudo bem se deu tudo errado no passado porque, tirando as memórias (boas) e aprendizados, ele não serve pra nada além de me machucar. Eu pensei em escrever pras pessoas que me feriram diretamente com ofensas e palavras mal escolhidas. Pensei em listar todas as minhas dores e decepções e acertar as contas. Mas lembrei que também posso ter escolhido errado como falar com alguém, que posso também ter feito tão mal pra alguém quanto me fizeram com um simples comentário, tweet ou até mesmo olhar. O "setembro amarelo" me fez ver que todas as atitudes têm consequências. Então, eu só peço que, se você se identificou com algum dos meus "sintomas", procure ajuda. E, se não passa ou passou por nada assim, tente olhar não com amor, mas com respeito as dores dos outros.
No momento, eu tô chorando por lembrar o quanto doeu (e eventualmente dói) e que existem pessoas sem ajuda. Mas, apesar de algumas pessoas acharem que falta Deus na minha vida, eu sei que Ele proverá pra que mais gente encontre uma luz.
"It's okay not to be okay" ♥

*Em caso de emergência, ligue 188!

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